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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Quer uma igreja novinha adaptada aos seus anseios?

Como muitas pessoas gostam de afirmar, quando se dá início a uma discussão sobre as diferenças entre as diversas igrejas, que as Igrejas deveriam ser uma só, pois Deus é um só, então não tem sentido estes debates e embates.
Mas está claro que Deus é um só, porém as cabeças das pessoas são várias. As interpretações que se dão à Palavra de Deus também são diversas. Se estas interpretações estão fundamentadas na Escritura Sagrada ou atendem a outros interesses já é outra discussão.
Hoje sabemos que montar igrejas é um bom negócio (financeiramente), sem se importar com a evangelização. Muitos são os interesses de pessoas que abrem igrejas: financeiros, políticos, vaidades, fiscais e outros inconfessáveis. Também são inúmeros aqueles que fundam igrejas sem ter uma formação teológica que ampare seus discursos.

Quando pesquisamos um pouco mais profundamente não encontramos justificativas para a fundação de mais uma igreja por parte de certos pastores. Por que sair de uma igreja para fundar outra igreja alguns metros adiante? Na realidade não fiz uma pesquisa científica para amparar esta afirmação, mas a faço amparado na observação do cotidiano e na pesquisa em vários sites da internet. Entre em sites de várias igrejas e as compare. O que resulta desta pesquisa informal? Chegue você mesmo a uma conclusão.
Nem todos pensam como João, quando diz que Cristo é quem deve aparecer e ele diminuir (conf. Jo 3, 30). Muitos têm uma atração gigantesca por microfones e o vício de falar, falar, falar, e encontram nas igrejas um público atento formado por pessoas pré-dispostas a escutá-las. Na maioria das vezes, como vemos nos canais de TV e nas estações de rádio, discursos amparados em pesquisa de marketing. São discursos formatados para atender a um segmento do público, que querem ouvir que seus problemas serão resolvidos por serem generosos com Deus: quanto maior a doação maior será a graça recebida.
Mas, após esta introdução, quero discorrer sobre um assunto que vem ocupando o espaço de muitos sites e blogs nos últimos dias: a abertura de mais uma igreja. Qual a novidade? A novidade está na sua denominação e a reação da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), através de uma nota pastoral emitida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB.
A igreja em foco é a Igreja Católica Carismática, que diz reconhecer a “autoridade do Patriarca de Roma, o Santo Padre o Papa, dos Patriarcas, dos cardeais, arcebispos, bispos, padres e diáconos da Grande Igreja Católica Apostólica, formada pelas Igrejas Católicas Romana, Ortodoxas, Anglicanas, Vetero-Católicas e Nacionais”, conforme eles se descrevem em seu site.
Por que eles dizem reconhecer a autoridade papal se, ao mesmo tempo, abrem a sua própria igreja? A resposta vem no mesmo texto: “Queremos ser mais um rito católico, a serviço dos fiéis católicos que se afastaram das missas e dos sacramentos em razão de não aceitar a disciplina e posicionamentos humanos adotados por suas igrejas”.
Se eles se afastaram da Igreja que presta obediência ao Santo Papa como irão obedecê-lo em outra que não está sob a hierarquia papal? No mínimo isto é incoerente. Será que eles esqueceram que a disciplina e posicionamentos adotados pela ICAR são fundamentados nas palavras do próprio Cristo? Os posicionamentos não são humanos, como dizem em seu descritivo, mas fundamentados na Sagrada Escritura.
A questão principal é que, a Igreja Católica Apostólica Romana mantém-se fiel aos ensinamentos de Cristo, sem tentativas de adaptação ao mundo secular. E isto incomoda muita gente, principalmente àquelas que querem usufruir da Salvação sem abster-se dos prazeres mundanos; querem chegar ao céu sem abandonar os prazeres mundanos. Não existem atalhos para se chegar ao céu. Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me (Mt 16, 24).
E em relação a isto a ICAR é radicalmente contra o relativismo, não flexibiliza sua doutrina porque é 100% Cristo, ou seja, é fiel naquilo que acredita. Como isto incomoda a muitos, estes tentam outros caminhos, que são mais, digamos, flexíveis, mais fáceis de trilhar.
Citemos exemplos: há igrejas, como esta mesma que nos referimos, que toleram o aborto em alguns casos, ou seja, arvoram-se a julgar os casos que podem ou não tirar a vida de seres humanos, numa tentativa de ser Deus. Com isto buscam angariar a simpatia de participantes de grupos feministas e seus familiares. Não interessa se este posicionamento é contrário ao que Deus quer. E o que Deus quer está na Bíblia, facilmente acessível a todos. Mas na busca de novos fieis focam em vários segmentos da sociedade e desprezam o conteúdo do Livro Sagrdo.
Outro exemplo: novas igrejas, como esta Carismática, realizam casamento de segunda união. E porque a ICAR não aceita dos fieis uma nova união? Vejamos o que nos diz o Catecismo da Igreja Católica: “O vínculo matrimonial é, pois, estabelecido pelo próprio Deus, de modo que o casamento realizado e consumado entre batizados jamais pode ser dissolvido. Este vínculo que resulta do ato humano livre dos esposos e da consumação do casamento é uma realidade irrevogável e dá origem a uma aliança garantida pela fidelidade de Deus. Não cabe ao poder da Igreja pronunciar-se contra esta disposição da sabedoria divina” (§ 1640).
Foi a ICAR que “inventou” esta norma? Não, ela apenas ratifica o que diz a Sagrada Escritura: Por isso, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher;.e os dois não serão senão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. “Não separe, pois, o homem o que Deus uniu.” (Mc 10, 7-9)
Mas, indo em direção contrária à palavra de Deus, as novas igrejas desprezam o sacramento Católico e abençoam novas uniões. Isto, claro, atrairá um novo segmento de mercado que não têm suas necessidades atendidas (no caso um segundo casamento na igreja) e buscam outro fornecedor. Desta forma exploram um novo nicho de mercado. Utilizo esta linguagem para deixar claro que a doutrina destas igrejas é o marketing, eles fazem o que as pessoas querem e desejam e não o que Cristo pregou.
Muitas destas igrejas utilizam em suas denominações expressões como  “católica” ou “apostólica” com o simples intuito de confundir a sociedade. Outras deturpam a doutrina da ICAR para denegrir a sua imagem ou jogá-las contra um grupo de pessoas (como dizer que a Igreja é contra a ciência ou o progresso e a favor do atraso científico) e, também, através de golpes baixos, alardeiam casos que envolvem padres para escandalizar os fieis (como se padre não fosse um ser humano, passível de erros, como os pastores protestantes). Os jornais também publicam casos que envolvem pastores de outras igrejas, mas estes não são explorados pelos membros da ICAR por não fazer parte de sua estratégia este confronto imoral/amoral.
Tudo isso se resume em uma tentativa de fragilizar a ICAR e arrebanhar fieis para seus domínios que estão desinformados ou inconformados com a rígida formação moral católica; onde podem cobrar mensalidades de seus fieis e engordar suas contas bancárias; onde podem manipulá-los com a exibição teatral de falsos milagres e outros tantos artifícios.
Mas eles podem tentar manchar a dignidade de padres ou fieis católicos, mas nunca chegarão a fragilizar a Igreja Católica Apostólica Romana, porque muitos já tentaram e nunca conseguiram. Não é por acaso que esta Igreja tem 2000 anos. Se ela não fosse divina não resistiria a tantos ataques.
Nós católicos estamos com esta missão: empunhar a bandeira da Igreja de Cristo e bradar que nossa Igreja é a mesma desde Pedro, a quem Cristo confiou a missão de governá-la (conf. Mt 16, 18).
Os interesses das pessoas que inauguram estas novas igrejas é adequar a doutrina da igreja a seus próprios interesses. Vejam o que está escrito na descrição desta nova Igreja Católica Carismática: “SEM EXIGÊNCIA DE DOIS CURSOS SUPERIORES PARA RECEBER AS ORDENS SAGRADAS (um único curso superior basta – ou filosofia, ou teologia, ou medicina, ou bacharelado em direito, letras etc” (os destaques são do próprio site). Esta mesma igreja dispensa o celibato (os religiosos podem ser casados) e o internato em seminários.
Está claro que o interesse é o de atrair o maior número de pessoas vocacionadas que encontram certa dificuldade em seguir a rígida disciplina católica, como, por exemplo, o celibato. Todos sabem que padres que se casaram travam eterna luta contra a ICAR reivindicando o seu retorno à hierarquia católica.
Com esta flexibilidade (visando facilitar ao máximo o ingresso de novos sacerdotes e seguidores) é claro que muitos “fieis” correrão para sentar em cadeiras da primeira fila. Mas devemos atentar que isto é relativismo moral puro, ou seja, é a ideia de que os valores morais mudam de povo para povo e de cultura para cultura. A argumentação é que estamos em outros tempos e a Igreja deveria se “modernizar”. Logo eles amenizam o discurso e relativizam as atitudes pecaminosas.
Se Deus é eterno e se Jesus Cristo é sempre o mesmo: ontem, hoje e por toda a eternidade (Hb 13, 8), porque suas palavras deveriam mudar? Deve a ICAR se adaptar ao mundo? Ou seguir a ordem de Cristo e pregar o Evangelho para que o mundo se adeque ao Evangelho? (conf. Mt 28, 19).
 O que as pessoas deveriam questionar é: Deus aprova tudo isso que está acontecendo? É da vontade de Deus essa produção industrial de igrejas? Driblar os mandamentos divinos é pecado? Flexibilizar a palavra sagrada é correto? Ignorar os sacramentos da Santa Igreja é evangélico? Pagarei por isso no dia da vinda de Cristo?
Muito mais poderia ser refletido neste espaço, mas deixaremos para outras postagens. Mas desta reflexão só posso tirar uma conclusão: os inimigos da Santa Igreja utilizam da estratégia de confundir as pessoas para atender a seus propósitos, que é o de enganar os fieis a Cristo. Mas Jesus Cristo estará sempre conosco, pois não foi à toa que ele prometeu: Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo (Mt 28, 20).
Por fim deixo também estas palavras:
Não vos deixeis desviar pela diversidade de doutrinas estranhas. É muito melhor fortificar a alma pela graça do que por alimentos que nenhum proveito trazem aos que a eles se entregam (Hb 13, 9).

NOTA PASTORAL DA PRESIDÊNCIA DA CNBB SOBRE ALGUMAS QUESTÕES RELATIVAS AO USO INDEVIDO DOS TERMOS: CATÓLICO, IGREJA CATÓLICA, CLERO E OUTROS.

A CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL – CNBB, na defesa da verdade e da liberdade, considerou oportuno publicar a presente Nota Pastoral, destinada aos membros do episcopado, do clero, aos religiosos e a todos os fiéis leigos.
O uso de nomes, termos, símbolos e instituições próprios da Igreja Católica Apostólica Romana, por outras denominações religiosas distintas da mesma, pode gerar equívocos e confusões entre os fiéis católicos. Nestes casos o uso da palavra “católico”, “bispo diocesano”, “vigário episcopal”, “diocese”, “clero”, “catedral”, “paróquia”, “padre”, “diácono”, “frei”, pode induzir a engano e erro. Pessoas de boa vontade podem ser levadas a frequentar tais templos, crendo que se tratam de comunidades da Igreja Católica Apostólica Romana, quando na verdade não o são. Por essa razão a Igreja tem a obrigação de esclarecer e alertar o Povo de Deus para evitar prováveis danos de ordem espiritual e pastoral.
Assim, temos o dever de alertar os fiéis católicos para a existência de alguns grupos religiosos, como é o caso da autointitulada “igreja católica carismática de Belém” e outras denominações semelhantes, que apesar de se autodenominarem “católicas”, não estão em comunhão com o Santo Padre, Papa Bento XVI, e não fazem parte da Igreja Católica Apostólica Romana. Por esta razão todos os ritos e cerimônias religiosas por eles realizadas são ilícitos para os fiéis católicos. Assim sendo, recomenda-se vivamente aos féis que não frequentem os edifícios onde eles se reúnem e nem colaborem ou participem de qualquer celebração promovida por esses grupos. Rezemos para que a unidade desejada por Jesus Cristo, aconteça plenamente.

Brasília-DF, 30 de novembro de 2011

Cardeal Raymundo Damasceno de Assis
Arcebispo de Aparecida
Presidente da CNBB

José Belisário da Silva
Arcebispo de São Luis
Vice Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner
Bispo Auxiliar de Brasília
Secretário Geral da CNBB